Do chão de fábrica ao fundo do mar
O que os robôs humanoides podem ensinar aos robôs de superfície e submarinos. Quem já acompanhou uma operação de ROV sabe que o robô é só metade da história: a outra metade é a pessoa no joystick.

São três da manhã num navio de apoio a uma plataforma em alto mar. Na sala de controle, um piloto de ROV (Remotely Operated Vehicle, o veículo submarino operado remotamente) segura dois joysticks e, a dois mil metros de profundidade, um braço mecânico gira uma válvula com a força exata para não danificar a rosca. A milhares de quilômetros dali, na fábrica da BMW em Spartanburg, nos Estados Unidos, um robô de forma humana pega uma chapa metálica e a posiciona para a solda. São duas mãos em mundos que parecem não ter nada em comum. No entanto, resolvem o mesmo problema.
A onda chega ao chão de fábrica
A inteligência artificial não entra num setor de cada vez. Avança como uma onda que atravessa fábricas, escritórios, portos e navios ao mesmo tempo, e os robôs humanoides são hoje a parte mais visível dela. Segundo a Federação Internacional de Robótica (IFR, na sigla em inglês), cerca de 7.000 humanoides foram vendidos no mundo em 2025 para uso industrial e de serviços profissionais. O número ainda é modesto, mas marca a passagem do laboratório para a linha de produção.
O exemplo da BMW mostra o que isso significa na prática. Em dez meses, o robô Figure 02 movimentou mais de 90 mil peças, somou cerca de 1.250 horas de operação e apoiou a produção de mais de 30 mil veículos. E a lição mais interessante não estava na máquina. Para que ela funcionasse, a montadora reviu as barreiras de segurança e reforçou a cobertura de 5G dentro do galpão. Robô, conectividade e ambiente de trabalho evoluíram juntos.
O que as duas mãos têm em comum
O humanoide e o ROV precisam, antes de tudo, entender o que está à sua volta. O avanço em câmeras, sensores e processamento que permite reconhecer uma peça sobre a bancada é o mesmo que ajuda um veículo submarino a identificar um duto no leito marinho. Depois, precisam agir com precisão, pegando, girando e posicionando objetos com a força certa. Precisam de baterias que durem mais e de atuadores que gastem menos. E operam sob o mesmo modelo de supervisão, em que alguém acompanha à distância e intervém quando necessário, exatamente como nos centros de controle dos MASS (Maritime Autonomous Surface Ships, os navios de superfície autônomos).
Há ainda um ponto em comum mais sutil. Os humanoides estão aprendendo a trabalhar observando pessoas. A mesma técnica pode ensinar um robô submarino a executar uma manobra de manutenção a partir da experiência dos melhores pilotos. E aqui a tecnologia encontra um problema humano que pouco se discute. O operador remoto vive um tipo de cansaço diferente do tripulante embarcado, feito de vigilância passiva prolongada diante de telas, e ainda não existe doutrina consolidada para gerenciar essa fadiga. O robô que aprende com esse operador pode também aliviá-lo, assumindo as tarefas repetitivas e deixando para ele as decisões que exigem julgamento.
Há também um lado que não se pode ignorar. A percepção que reconhece uma válvula para fazer manutenção reconhece igualmente um cabo submarino, para protegê-lo ou para danificá-lo. Em agosto, os cabos Indigo West e Indigo Central, na Austrália, falharam ao mesmo tempo, com registro de atividade suspeita de uma embarcação nas proximidades, e o caso passou à investigação da Polícia Federal Australiana.
Pouco depois, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) flagrou submarinos russos treinando, no Ártico, perto do arquipélago de Svalbard, o uso de equipamento capaz de inutilizar cabos submarinos sem deixar rastro. São dois episódios recentes, em extremos opostos do planeta, que mostram que a robótica marítima já é assunto de segurança, não apenas de produtividade. Tecnologia de uso duplo exige que quem a utiliza também a domine.
O que o mar cobra a mais
O mar é o teste mais exigente para tudo isso. Debaixo d'água há pressão, corrosão, pouca luz e comunicação limitada, porque as ondas de rádio praticamente não se propagam na água. Na superfície, há ondas, vento, salinidade e longas distâncias da costa. Uma solução que funciona num galpão climatizado precisa ser adaptada, protegida e testada antes de operar a centenas de metros de profundidade.
A lição de Spartanburg vale em dobro aqui. Se numa fábrica foi preciso rever a segurança e a conectividade do galpão, no mar o galpão é o próprio oceano, e o navio de apoio, a comunicação acústica e o centro de controle em terra precisam evoluir junto com o robô. Ainda assim, a base tecnológica, os algoritmos e boa parte da cadeia de componentes são compartilhados. Cada avanço na indústria de humanoides encurta o caminho para os robôs marítimos.
Nosso descortino
O Brasil opera robótica submarina há décadas, empurrado pela exploração de petróleo em águas profundas. Temos operadores experientes, empresas de serviço e centros de pesquisa que conhecem esse ambiente como poucos no mundo. A oportunidade está em deixar de ser apenas comprador e passar a ser também desenvolvedor, acompanhando de perto o que a indústria de humanoides produz em percepção, manipulação e aprendizado, cuidando de quem opera essas máquinas e dominando a tecnologia a ponto de saber protegê-la.
A mão que gira a válvula às três da manhã na Bacia de Santos guarda um saber que nenhum fabricante estrangeiro possui. Se o país souber transformar esse saber em dado, algoritmo e produto, será essa mão a ensinar o robô de amanhã.
Fontes
- Tech Life News, edição de 26 set. 2026, "Humanoid Robot Sales Reach 7,000 as the Industry Faces Its First Scale Test", com base em Reuters (21 set. 2026).
- International Federation of Robotics (IFR), levantamento anual e position paper sobre robôs humanoides.
- BMW Group, resultados do piloto do Figure 02 na fábrica de Spartanburg.
- John Cordle, "Towards a Fatigue Management System for the U.S. Navy", CIMSEC/Maritime Executive, 26 jul. 2026.
- SUBCO e Polícia Federal Australiana, comunicados sobre as falhas dos cabos Indigo West e Indigo Central (ago. 2026); ABC News (Austrália).
- Reuters, reproduzida pelo Valor Econômico, sobre submarinos russos treinando perto de Svalbard.


